segunda-feira, 21 de novembro de 2011
domingo, 23 de outubro de 2011
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Sorria, você está sendo filmada
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Todos os amanhãs possíveis
quarta-feira, 20 de julho de 2011
PASSOS QUE NÃO SE PERDEM NA MEMÓRIA
Não durou muito. Na primeira crise do seu estabelecimento, eu fui parte do corte de despesas. Não desanimei. Logo fui trabalhar no Ponteio Lar Shopping como auditora. Seis horas de pé, vigiando as vendas das lojas. Situaçãozinha desagradável; se aumenta as vendas, a loja tem o seu aluguel reajustado. Capitalismo é isso. Pelo menos, eu ganhava ticket alimentação e vale-transporte. Menos mal. Aí veio meu primeiro emprego de verdade. Um amigo me indicou. Era na Caixa Econômica Federal. Uau, um banco. Salário três vezes maior, mais benefícios. E eu com 16 anos! Nada mal, de verdade. Comprei um pacote e fui pro show dos Rolling Stones no Rio de Janeiro. Sozinha. Rá! Minhas asas não estavam se contendo. Cada dia que passava queriam aparecer mais um pouquinho. Daí, foram dois anos de muito aprendizado e ralação. Sempre estudando. Até que passei no tal do vestibular. Direito e biologia. Ainda bem e, graças a todos os espíritos bons - anjos, astros, orixás etc - escolhi biologia. Gastava meu salário todo pagando o curso. Minto: sobravam 13 reais. Mas eu ainda contava com uma grana de pensão alimentícia do meu pai.
Então, fui na PUC, deixei meu currículo e consegui um emprego na universidade. E junto com o emprego uma bolsa de 100% - eu disse cem por cento!!! - para estudar biologia. E me formar. Fiquei simplesmente rica porque passei a ter um salário ok, recebia minha pequena pensão e ainda não tinha que pagar faculdade!
Foi aí que comprei uma barraca e um mochilão. Comecei a desbravar terras mais distantes. E consegui comprar meu primeiro carro. Um Kadett na cor chumbo, uma potência de motor. Tão potente que bebia que era uma beleza. Vivia acabando a gasolina e eu indo correndo – literalmente – no posto encher aquele saquinho que já morava no porta-malas. Esse carrinho foi parar lá na Bahia. Boipeba, Itacaré, Barra Grande, Ilhéus. O trabalho era pesado, porque a biologia era no período da tarde. Então, para conseguir cumprir as 44 horas semanais de dedicação, eu ia de manhã e à noite, além de aos sábados, duas vezes por mês. Tudo bem. Eu ainda tinha idade, ânimo e sede de viver tudo. Então, ainda dava tempo para namorar, beber depois da aula e do trabalho com a turma de bio... Até que foi se aproximando a minha formatura. O que eu faria da vida? Como bióloga era uma excelente auxiliar administrativa. Trabalhei durante todo o meu curso. Não fiz estágios em laboratórios, não me envolvi em grandes pesquisas.
Resolvi ser professora, mas eu queria morar no Rio de Janeiro. Fixação antiga, sabe? Comecei a olhar todos os concursos no estado do Rio e ampliei a busca para empresas com sede na cidade maravilhosa. Uma delas era a Vale. Onde estou até hoje. Com um pequeno, mas distante detalhe: fui mandada para São Luís do Maranhão. Nú! Pelo menos deu para conhecer os Lençóis Maranhenses, Alcântara, Fortaleza e Jeri no Ceará. Fui várias vezes “a trabalho” para o Rio, onde também estava um grande amor. Voltei à Bahia, não mais de Kadett ou de busão, mas de avião, tá? Para passear e rever velhos amigos. Fui parar na Austrália, África, Argentina, França, Holanda, Noronha e outras terrinhas brasileiras. A barraca passou a ser menos usada, entraram os hotéis de luxo pelo trabalho e pousadinhas nas férias. Daí, veio a primeira casa alugada, o primeiro apartamento comprado, o sonho da casa com um verde ao redor se concretizando. Veio uma filha maravilhosa, com saúde e uma infraestrutura e conforto de dar gosto. Acho que Nina não terá problemas em entender o valor das coisas e como ela é privilegiada. O apartamento virou um lote que vai virar uma casa. E Nina, em breve, engatinhará nas areias de Noronha. Fina, não é? E o vício não pára. Trabalhar e conquistar. De busão para avião, de barraca para hotel de luxo, da casa simples com minha mãe para minha casa linda no mato. De sozinha para família. De Guarapari para Paris. Guaraparis, hehehe. Mas de todas essas conquistas materiais, as maiores foram os aprendizados nessa jornada. As muitas vezes em que senti cansaço e desânimo e que sempre tinha alguém para me ajudar. Minha mãe, muitos amigos queridos, parentes e até vizinhos. Gente simples e gente chique. Quer saber? Ser chique, chique mesmo, é ser simples. É saber apreciar a vida da forma que ela se apresenta para você. De busão ou de avião. De Foie Gras ou de ovo frito em cima do arroz. Chique é ter humildade. A Nina vai saber disso. Vai ver beleza naquilo que não é óbvio. Que está nas sutilezas. Que está naquilo que não podemos comprar. Enquanto Nina não cresce e começa a se preocupar com essas coisas, deixa eu voltar aqui pro trabalho para pagar mais uma continhas – com muito orgulho! – para programar mais umas viagens e mais coisas para conquistar nessa vida que é um cisquinho. Eu sempre brinco que maldita da mulher que queimou o soutien, mas acho que se eu vivesse no tempo em que as mulheres ficavam em casa costurando, cozinhando, cuidando da casa, no mínimo, eu seria do sindicato das costureiras ou da cooperativa das donas de casa, qualquer coisa assim. Porque o poder não tem preço. O poder de dar o rumo da sua própria vida com seu próprio trabalho. Puxa, vida, que pena que hoje não é primeiro de maio!
Ciúme de você
Uma careta, uma gracinha, esboça um sorriso e volta a ficar com a expressão séria. Será que é sono? Pode ser fome. Não, mamou há apenas duas horas. Está limpinha, então o que pode ser? Nada não. Só porque parece uma mala velha, sorrindo praticamente todos os segundos desde que acorda até dormir – e até dormindo, também sorri – não significa que as bochechas caídas são motivo de preocupação.
Até que, de repente, no meio daquela gente toda da festa junina da escolinha, ele chega. Entoa o seu grave chamamento e dois olhinhos jabuticábicos de cílios de boneca brilham. A bochecha é suspensa por um sorrisão banguelo, as pernas balançam e toda aquela seriedade, incomum, desaparece.
É... As meninas gostam mesmo dos seus papaizinhos.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Quase sem palavras
Claro. Como eu podia ser boba assim. Quase sem palavras disse o que queria e a solução que precisava. Sábia, Olivia. Não tem nem dois anos e já economiza mal entendidos...
quarta-feira, 25 de maio de 2011
O meu caos
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Muitos anos de vida
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Primeira exposição
quarta-feira, 27 de abril de 2011
A descoberta
Meados de abril e eu com aqueles conhecidos sintomas pré-mestruais. Os seios inchados e doloridos, certa impaciência e um calendário que apontava para a solução disso; assim que ela descer, viro gente de novo, pensava. Estava no Rio de Janeiro, tinha acabado de alugar um apartamento no ponto mais nobre de Ipanema – na Rua Nascimento Silva, entre Joana Angélica e Maria Quitéria. A tão sonhada mudança para a cidade maravilhosa, a carreira internacional, as viagens, as milhas, os cartões fidelidade, o networking, a vida perto do mar, o glamour de uma capital culturalmente mais efervescente do que a provinciana Beagá, tudo o que eu achava que era importante na minha vida, de repente, foi colocado à prova.
Na semana da descoberta, antes mesmo de me mudar para o apartamento, fui fazer uma coisa rara – visto que eu estava morando num aparthotel –, algo para comer, e ao quebrar o ovo tive a surpresa de encontrar duas gemas. Achei engraçado e na solidão de uma quase-mudança de cidade, compartilhei com meus amigos no facebook o acontecido. Dentre todos os tipos de respostas, uma assim: pode ser um sinal…
Sinal de quê?
Coincidências à parte, acordei no meio da madrugada seguinte com a mão na barriga. Para livrar-me de uma ansiedade desnecessária, comprei logo um teste de farmácia e fiz no primeiro xixi da manhã. Era só para chegar em Beagá no dia seguinte tranquila, caso me perguntassem eu diria, tá tudo certo, fiz o teste ontem. Já havia feito desse teste antes, mas nunca recebi o produto das mãos de uma atendente que sorrisse tanto para mim. Muito esquisito.
Duas listras quer dizer grávida, uma listra quer dizer não grávida, mas aqui tem duas listras, duas listras quer dizer grávida, uma listra não grávida, mas aqui tem duas, não tem uma só, devia ter, mas não tem! Coloquei o teste lado a lado com as instruções e estava lá, meu teste, igualzinho o positivo da bula. Eu tremia, chorava, ria, sentia medo, negação, olhava a barriga no espelho, tudo ao mesmo tempo. Já sofria só de pensar em como daria a notícia, no que eu faria se fosse sozinha, no que eu faria se fosse junto, no que eu não faria, enquanto, descabelada, dentro de um táxi, ia para um laboratório fazer um exame de sangue. Mais uma pessoa que me atendeu demasiadamente sorridente e o sorriso se alargou ainda mais quando contei o ocorrido. Para me "tranquilizar” disse, minha filha, se deu positivo o de farmácia, você está mais que grávida, seus hormônios já estão lá nas alturas!
E a essa altura, mal sabia eu que um danado de um flagelinho sapeca era o ator principal da maior descoberta da minha vida até então: que eu não fazia a menor idéia do que é importante na vida. E o mais incrível, a noção nem chega assim…vem vindo em doses homeopáticas a cada mudança desencadeada pela fusão de amor que me salvou e que vai salvar esse mundão doente que a gente deixou de herança para os nossos pequeninos e pequeNinas.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Novo parto
sábado, 26 de março de 2011
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
A Nina vai nascer
Aproxima-se o Natal. Foram poucas as oportunidades em que me imbuí desse clima espiritual que contamina quase todos os povos, especialmente aos Cristãos.
Afirmam alguns ser tempo de mudanças e de transformação. Tempo de renovação das esperanças, tempo de se doar, tempo de perdoar, tempo de confraternizar...
Que seja tudo isso, pois, afinal, são as aspirações de toda a humanidade!
Neste Natal, porém, aqueles sentimentos tão distantes de minhas recordações, parecem que se afloram novamente. O coração bate esperançoso e a mente pressente transformações, as mais auspiciosas, para um futuro recente. O sentimento de solidariedade se avoluma, transformo-o em realidade, sinto me feliz por isso. Já não tenho a quem perdoar, pois também esqueci todas as mágoas do passado.
A renovação da vida, enfim, torna-se realidade e agradeço.
Se tudo isso já não bastasse, tem o presente que vou receber, que belo presente! Trata-se da Nina, a filha da Flavinha que está para nascer.Ela traz em sua preciosa bagagem a harmonia da união entre seus próprios pais – e como dá gosto ver isso -, de sua legítima avó, Miriam, com o Vagner – avô emprestado – e de todos os entes queridos dessa família.
Parabéns e obrigado, Nina. Você é símbolo dessa maravilhosa transformação! Você é a nova luz, com matizes dos mais variados, que iluminará nossas vidas – de todos -, de hoje em diante!
Um beijo pra você, sua mãe e um forte abraço para seu pai, Bruno.
Gnerva Tulivar – 21 de dezembro de 2010.
Obs: presente que a mamãe ganhou de natal do seu vovô, pequeNina. Nada emprestado, muito amado, você vai ver...
Imagem: foto de Vartuli
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Da vaidade
É impressionante o que um ser humano é capaz de fazer, quando do alto do seu EGOísmo e EGOcentrismo não admite que, em algum momento da sua vida, não terá o que quer, quando quer. E isso se agrava quando, muito provavelmente, nem queira verdadeiramente, mas o fato de ter algum impedimento, torna o esse querer incontrolável.
O querido passa então a ser encarado como um desafio, uma meta a ser atingida, um alvo a ser acertado, porque se não, as taxas hormonais podem se descontrolar de tal maneira, capazes de causar uma tristeza e uma depressão – bem como os que experimentam abstinência de um composto químico qualquer – que só seria aliviada com o domínio do objeto desse querer, desmesurado e vil. Querer esse que é confundido com alguma coisa próxima de sentimento bom, ou mais, com amor. Mas, por favor, tenhamos aqui respeito a esse nobre sentimento, amor, pois esse, nada tem a ver com intolerância à perda, ou ao controle ou à mera vaidade.
Falando em seres humanos, Guimarães Rosa já havia recomendado certos cuidados ao se visitar um zoológico, como, por exemplo, nunca, nunca mesmo, dar espelho aos macacos. Eis que se apresenta um grave problema na humanidade, porque nas grandes cidades, especialmente nas muito grandes, quase tudo é espelhado, muito espelhado. Daí, já viu, vale tudo para se transformar numa imagem mais bonita, mesmo quando no fundo, não se é.
Vale usar o tempo que passa para esmorecer as más recordações, com a ajuda de uma empostação mais suave na voz.
Vale usar a distância para não deixar em evidência o rastro das mancadas disseminadas a outros quereres que, por estarem perto rapidamente vêem a verdade e vão embora, um a um, e vão mais, cada vez mais.
Vale atribuir ao objeto do querer o motivo da solidão vivida, quando na verdade ela é causada pelo afastamento dos que enxergam além da imagem que tenta ser projetada.
Vale realizar inocentes manifestações de gentileza arquitetadas tão somente para se fazer presente, para que na primeira oportunidade de fraqueza, esteja ali, à disposição, bastando apenas uma mensagem instantânea, uma letra, um NADA, para tão prontamente mostrar que está a postos, num gesto que soa tão bonito, que pode até conseguir que se esqueçam que antes, por muitas vezes, não tinha ninguém ali. Especialmente, quando era realmente preciso que tivesse.
Realmente fica muito difícil ser diferente disso, quando existem tantos espelhos ao redor. Mas a verdade sempre se revela. Guimarães Rosa, de novo, mais uma vez e para sempre disse, Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois. E o amor é a verdade sem subterfúgios. Sem táticas. É desprovido de vaidade, a ponto de abrir mão de saciar a própria vontade em prol da felicidade de quem se ama. Ainda mais se já tiver falhado ou esgotado as possibilidades de cumprir essa missão.
Pelo menos, o que conforta nisso tudo, é que o mesmo ser capaz de deturpar sentimentos para conseguir aliviar a angústia de conviver com si mesmo, também é capaz de um dia entender e se encontrar com esse soberano sentimento, exclusivamente humano, que é o amor.
Há esperança e que assim seja.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Trezentos gramas e vinte centímetros de perfeição
Eu com a minha mania de querer ser menino, gostar das brincadeiras de menino, querer ficar perto de menino, acabei ganhando de presente uma menina.
Minha menina...
Ai que medo me aflige!
Não tenho muito o que dizer, assim bonito, assim poético, etc e tal. As vezes meus escritos nem são tão bons mesmo... Agora, mais do que nunca, nao estou nem aí para isso. Até porque acho que estou muito longe de conseguir chegar perto de qualquer palavra, frase ou oraçao que expresse uma pontinha do que foi e é saber que é ela...
Que angústia da repetição!
Que oportunidade de amar um amor tao infinito que possa curar a boneca-mãe dos seus medos bobos!
Minha filhinha, minha menina... seus chutinhos me ajudam a ter mais coragem para a missao de ser sua mãe e espero que sinta orgulho desse meu oficio, porque agora eu sei que tinha que ser você mesmo.
E explodo em lágrimas de alegria de saber que você esta vindo, minha pequetita Nina.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Das sutilezas
De um encontro, tudo. Um olhar busca o outro e, de repente, sem ter idéia de que a vida pode traçar planos mirabolantes, lá está a situação montada. Ambos vítimas de si mesmos, prestes a se enroscarem numa armadilha , preferem a desatenção à razão que já maltratou tanto. Tanto um quanto o outro.
Da brincadeira, como quando se faz alguma coisa que parece meio errada mas que, por não ser por mal, se autoperdoa, vem o resultado fatal. Ou melhor, vital. Vital e avassalador.
Em tudo que pode o resultado arruma um jeito de dar o recado de que tem certas coisas que não são brincadeira. Está na rua com as coisas que antes desapercebidas, parecem saltar aos olhos. Está na reação das pessoas. Está no corpo que muda, transmuta, expele, retém, produz, cresce. Está na alma que grita socorro baixinho para não fazer barulho para aquele serzinho que ali está. Porque afinal de contas, a ele é permitido brincar e já ensina, sem saber.
Daí para frente, só mistério apesar das opiniões aqui, relatos de como vai ser, ali. Na verdade, não adianta tanta especulação. Tudo pode ser ou não, mas o embrião, pelo seu próprio processo de amadurecimento, ensina a sua primeira lição: é preciso ter paciência. Esperar calmamente. E viver um dia de cada vez. . Nessas sutilezas da vida, ambos descobrem que o ontem, foi importante e belo, mas hoje o serzinho está mais completo. E o amanhã, sendo o hoje feliz, não tem outra escolha se não ser feliz também.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Vaso quebrado
Algum tempo depois, não muito, tantos foram os acontecimentos. Mudanças de casa, no trabalho. Novas amizades. Chegando filhos de amigos, velhos companheiros indo embora. Alguns casamentos, alguns rompimentos. Lágrimas de tristeza e de alegria. A vida seguindo o seu ciclo de altos e baixos. Esse ritmo sempre guiado pela minha essência; uma pessoa extremamente apaixonada. Intensa. Talvez por isso tantas lágrimas, tantas mudanças. Uma dose a mais de drama aqui, uma euforia exagerada ali.
A vida corre mesmo. A minha então… A essência fica, mas o vento que bate na cara, nas descidas bruscas dos baixos passa transformando. Algumas coisas mudam. Eu queria dizer que somos lapidados. Mas isso remete a um pedaço bruto que vai se tornando uma obra prima maravilhosa. Nem sempre é assim. Às vezes, coisas bonitas são perdidas. Como aquele vestido lindo que comprei e que ficou deslumbrante, mas que não foi usado no dia e, agora, já não serve mais. Pode até ser que sirva de novo um dia. Mas não vai mais causar aquela sensação de parecer ter sido feito para mim, para aquele dia. A gente vai mudando sim. E o que um dia não parecia ter grandes efeitos, de repente fica. O que machucava e sarava já não sara do mesmo jeito. Sabe quando a gente tira casquinha do machucado pra ficar livre da marca rápido, mas só o que faz é sangrar de novo e aumentar a marquinha? Feito um vaso quando quebra e a gente tenta colar. Pode até ficar inteiro. Mas sempre vai ser um vaso quebrado.
O tempo implacável, nessa roda viva e gigante, deixa de herança lembranças. Às boas, cabe o alento nas horas mais difíceis, quando as ruins insistem em criar uma carapaça em cima daquela chama do eu, essencialmente apaixonado e entregue. E quando o vestido não servir mais, ou quando aparecerem as linhas dos cacos colados? Cabe também às boas lembranças ajudar a mostrar que isso serve apenas para que haja menos tristeza em qualquer próximo acontecimento. Dos tantos que ainda serão. Até que, numa mesa de bar com um bom amigo como companhia, eu possa com muita saudade abrir os olhos, e constatar que a vida é mesmo um sonho.
Um belo de um sonho.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Todo-coração
Hoje me deu vontade de ver um dia lindo
De ver o dia
Tenho estado submersa num lugar onde a única luz está escondida dentro de mim
Um pequeno e crescente ser
Uma criaturinha com um coração que já bate acelerado
Pude ver e ouvir
Uma pulsação ansiosa para bombear sangue e vida
Ainda não sinto esse pequenino ser
Exceto por alguns caprichos do estômago
E dor na mais feminina parte do corpo que desponta para prover alimento
Mas o todo-coração serzinho, milimétrico meu fruto de puro amor, é grandioso
Pois é razão da minha vontade de emergir e respirar
Para todos os dias lindos que quero ver
Até a beleza dos dias só não ser maior do que a do rostinho do meu - já eterno - amor
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Oração
terça-feira, 20 de abril de 2010
Ironia do destino
Apenas um milímetro.
Se não tinha amor bastante, não importa.
Já não estou mais sozinha.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Quem sabe?

quinta-feira, 4 de março de 2010
Pinot noir e lírios

Um psiquiatra australiano disse essa semana que sua pesquisa comprovou que pessoas felizes são egoístas. Que a tristeza faz com que as pessoas percebam mais o mundo exterior, logo as outras pessoas. Que os tristes ajudam mais. Fiquei pensando nisso, mas acho que eu não estava num bom dia. Porque achei que o ser humano é sempre tão egoísta, que se ele ajuda mais porque está triste é para se sentir um pouco melhor, com o fato de ver que sempre tem alguém pior. E resolvi que nada melhor do que a gente se ajudar primeiro. Dar uma mãozinha, sabe? O dia estava realmente difícil. São tantas mudanças e um território que não me pertence. E ainda tem os outros. Sim, existem outros e seus conflitos. Os altos. Os baixos. O desânimo deu uma invadida que a cama tem chamado cedo. Nove e meia, dez da noite. Pra acordar cansada. Já conheço esse filme. O elenco? Só uma pessoa atuando. Passeei pelas ruas, não vi ninguém. Como se tudo estivesse congelado, menos eu. Almocei sozinha. Comprei flores para mim. Passei num “café” charmoso. Adoro o aroma. Parei na loja de sempre, o sommelier reparou que eu estava diferente dos outros dias. Comentou. Não respondi. Cheguei em casa e coloquei as flores num vaso com água. Num gesto de carinho aos meus sentidos, dei aos meus ouvidos Jobim. Ao meu olfato o perfume dos lírios. A meu paladar a companhia do pinot noir. E ao meu coração a calma de saber tudo acaba no seu devido lugar. Desde que não falte água às flores.
Imagem: e urubu de Jobim...
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Mas passa

Descolore o mar
e apaga o riso e sorriso.
De repente a chuva cai fria.
Cai mansa
e as gotas caem no choro.
De repente é amor demais.
Inteiro demais
e vira apenas mais um soluço.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Causa mortis

Imagem: A Um Passo da Eternidade, 1953, cena de amor entre Deborah Kerr e Burt Lancaster
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Mineira na praia - mas não em férias - 2
Uma pequena quantidade de roupa. O suficiente para um fim de semana. Em BH. Que BH que nada. Em um casulo. Casulo de noite e de dia. Precisa mais nada não. O resto é o vento e o sol batendo no rosto quando raro desencasula. Mesmo assim, bem perto.
Descobri que duas rodas é bem melhor. Só não é mais que chão. Se bem que eu acho que vale todos os estratos, veículos e espaço. No chão, sobre rodas, no ar. Na cama, na rede, na sala de estar. O importante mesmo é estar lá, sideral...
Divaga, vaga, para e volta. O telefone que toca traz à tona o presente. Já me derreti de calor. Já andei apressada por causa do horário. Já tomei um cano de um carioca exxxperto. Já tomei uma cerveja antes do almoço. Já comprei mais alguns CD’s dos Beatles para a coleção. Já encontrei a terapeuta que estou precisando; para ver se consigo guardar tudo isso dentro da cachola. E ainda tenho que lembrar de passar ali na praia para fazer a oferenda à Janaína. Porque, já que estou de volta, é melhor não descuidar.
Iemanjá, Odó Iyá. O dia é seu. O interesse em celebrar é todo meu, pra ver se a cor fica de casulo até borboleta.
imagem: aquela, de dentro do taxi
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Mineira na praia - mas não em férias - 1

O coração anda ocupado, mas o Carlos Drumond de Andrade já avisou que o amor quando pula o muro e sobe na árvore tem um destino daqueles. Enquanto finjo evitar esse destino, vou me ocupando com a praia há três quadras da minha casa e a caminhada diária até a estação do metrô. Vou trabalhar. Volto. Como um "japonês" por conta da empresa. Não está ruim não, né? E ainda por cima, estou dando sorte com os cariocas que têm fama de serem marrentos. Desde que cheguei tenho sido muito bem recebida em todos os lugares. Convite para teatro, cinema, um barzinho. Com nome na porta e direito a acompanhante. Vinho na casa de uma querida amiga. Camareiras que cuidam de mim como se eu fosse uma órfã. Arranjei um monte de mãe. A do bar da piscina que mesmo quando não quero leva alguma coisa para eu comer, além das bebidinhas para a minha geladeira. A supervisora da limpeza, de uma delicadeza ímpar, cuida da casa como se fosse dela e das minhas coisas com um preciosismo de dar gosto. A do café da manhã que mandou comprar manteiga só para mim. A da recepção que tem um belo de um sorrisão toda manhã. E os rapazes da segurança que abrem a porta e sorriem, consertam alguma coisa. Juro, se eu reclamar, podem me internar.
Ontem no metrô que vive superlotado, dei lugar a uma senhora. Ela ficou repetindo que não precisava, que seria apenas uma estação. Mentira, ela desceria em Botafogo, cerca de quatro estações à frente. Sentou-se e agradeceu com aquela carinha de vó – será que sou sentimental?. Logo apareceu outro lugar aonde me acomodei. Quando me esqueci da velinha e me concentrei na esperada chegada em casa, tomei um susto. Eu estava sentada perto da janela e a senhora ao descer, bateu no vidro e deu um sorriso lindo pra agradecer. Fiquei emocionada. Acho que sou mesmo sentimental...
Saudades?
Todas, mas tenho sido bem tratada por aqui. Que São Sebastião conserve. E que São Jorge me empreste suas roupas e armas para ser só feliz. Porque, já disseram, é melhor ser alegre que ser triste.
Amém.
domingo, 24 de janeiro de 2010
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Eurita 357
É assim. Um turbilhão. Não é possível que em nenhum momento da minha vida as coisas vão acontecer de forma mais serena, mais calma. Calma! Mal cheguei na casa de varanda pra serra. De rede vermelha de amar. Amar o amor e amar a vista. Que que tem se não é pro mar? Tem nada não. Tinha. O marido deitado nela fumando o cigarrinho, com cara de pensativo. Tinha o bonito, nos quarenta e sete do segundo tempo, que adora uma rede, pra eu aconchegar e ficar bem perto. E uma santa que fica vigiando tudo o que acontece ali. Quase não coube no espaço, mas ela quis caber e coube. E deve fechar os olhos às vezes pra não ver tamanha confusão de gente. Gente que entra, gente que sai. Gente que vai e vem. E fica. E tanta música esquisita. E música boa também. A santa deve ficar agoniada algumas vezes que sente que alguma tristeza paira no ar. Porque tristeza é uma coisa que não combina com aquele lugar. Vale até luzinhas de natal sem ser natal. Mesmo que todo mundo que entre fale, olhe, é natal. Que raiva. Nem entendem a instalação do marido. E ele nada de Guimarães Rosa. Até achou bonita a letra no azulejo, mas o Leminski agradou mais. Eu acho. Acho também que a cozinha é grande, ótima para cozinhar, mas só tem cerveja. E vinho. Vinho. E cerveja. A maior produção de latinhas das redondezas. Nunca vi. Dá até para abrir um negócio. Só os amigos sustentariam o empreendimento. Faltou cozinhar. O marido até fala que gosta de cozinhar. Eu também. Mas o negócio dele mesmo é o tal wii. E o meu, não sei. Sorte que o Bolão é do lado. Ui, às vezes o cheiro de bolonhesa causa até desespero. Faltou o cachorro também apesar da jabuticabeira e as outras meninas terem cumprido um papel importante. Claro que num bairro como aquele, plantas ajudam a compor o cenário. Ah, e o barbeiro velinho também. Pelo menos para o marido passar em frente e dizer que vai fazer a barba lá um dia. Um dia vai, mas antes é preciso ir ao Marilton’s, tomar uma...cerveja. Novidade. Além da vontade de variar o cardápio. Mudar de rochedão, pra caol. Mudança significativa. Pelo menos anda uns quarteirões pra queimar as calorias. Mentira. Vai de carro mesmo. Essa vida ainda vai nos matar... Mas não isso mesmo que nos faz viver? È marido...essa vida é bandida mesmo. Ela faz o que quer. Rouba da gente o que quer, devolve quando quer ou nem devolve. Dissolve. Agora a vista pro mar está até bonita. O cristo tem uns braços abertos assim, grandão, que é bom pra quem é carente assim, tipo eu. A música está em todo lugar e o medo dentro de mim. Estou enfrentando o medo mais uma vez. Sozinha. Mais uma vez sozinha, mas dessa vez acompanhada das melhores lembranças da casinha de varanda com rede vermelha com vista pra serra, um marido, um bonito, muitos amigos, uma santa, algumas plantas e muita saudade.