segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sem lugar para a tristeza




Nada pode tornar a vida triste quando se pode andar de bonde a noite, ao lado de um amigo que tem amor de graça para me dar e não tem medo de entregá-lo. Subir os morros de Santa Teresa, com um motorneiro que faz aquele veículo ainda mais charmoso, com passageiros pendurados ou sentados,  sempre sorrindo, obviamente desperta um sorriso dentro do meu coração! Andam no bonde tantas vezes, mas adoram aquela coisa da lei dos trilhos, onde o bonde é o soberano e que os carros esperem, os ônibus também, e quem quer que seja. Ele só vai dar uma esperadinha para aqueles desavisados chegarem seus carros estacionados nas calçadas um pouco mais para perto da parede. E o condutor nem perde o bom humor. E lá vai o bonde enfeitando e alegrando os minutos da vida de todos que o vêem passar. Não, não vou ficar triste porque você nunca andou de bonde.

O que vai me deixar triste, quando acordo no quarto de hotel com o primeiro raio de luz da manhã vindo lá do mar de Copacabana, do sol nascente, num dia normal de trabalho? E depois de acordar tão cedo sem reclamar porque o cheiro da maresia tem um poder despertador, trabalhar muito e na saída tomar um chopinho ali no café do Cine Odeon? Não, não vou ficar triste porque você não quer mais falar comigo.

Não cabe tristeza aqui neste quarto, onde da cama macia de sonos, sonhos e entregas, constato que, seja nesta casa ou qualquer outra que estive e estarei, esta mesma cama guarda e guardará em si, tudo que há em mim,  que é o que há de melhor para quem tiver a sorte de enxergar. Não, não vou ficar triste porque você não tem essa sorte.

Impossível ficar triste, quando existe D. Quixote, Grande Sertão Veredas, Cem anos de Solidão, poesias, a vista da serra do Curral e das favelas, os barzinhos musicais de Santa Tereza, a piscina de mil litros, a roseira, a jabuticabeira cheia de jabuticabas com buraquinhos dos insetos que delas se deliciaram e um telefone amarelo de discar e que faz triiiiim, que comprei na feira de atiguidades no bairro Pinheiros em São Paulo no ûltimo fim semana. Não, não vou vou ficar triste porque você não vai interromper o silêncio da casa, fazendo o telefone amarelo gritar triiiiim pra mim.

Não tem como ficar triste, quando o breu da noite vai se debruçando nas minhas pálpebras, anestesiando as minhas pernas cansadas de tanto ir e vir, e me aninhando em sua quietude, para que eu não sinta nada, não pense mais nada, para que eu apague da minha mente qualquer lembrança sua e durma. Não, não vou ficar triste se eu não sonhar mais com você.


Imagem: causar um triiiim não é para qualquer um


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sob(re) controle





Um carinho, um afago,
alguns beijos, paparico,
um pouco de música,
um tanto de poesia,
uma saudade adiantada.
Colocar o controle em off,
ficar um pouco mais
e mais, até dormir,
um cheiro para entranhar
na pele, nos lençóis
respirar alternadamente,
batimentos descompassados.
Um medo de sei lá o que
aterrisado na mente,
virando a chave 
do controle para on, 
pra ver se esquece o som
da voz susurrada no ouvido
no meio do enlace
que é tudo de bom,
mas que depois da partida
sempre leva embora
um pouco do romance.
Nem assim,
nem você
nem a mim,
esse medo é capaz
de tirar do transe
que a gente mergulha
quando vive intensamente
esse nosso lance.



Imagem: www.clubedascamisas.com.br

domingo, 25 de outubro de 2009

você
que a gente chama
quando gama
quando está com medo
e mágua
quando está com sede
e não tem água
você
só você
que a gente segue
até que acaba em cheque
ou em chamas
qualquer som
qualquer um
pode ser tua voz
teu zumzumzum
todo susto sob a forma 
de um sûbito arbusto
seixo solto
céu rovolto
pode ser teu vulto
ou tua volta

Paulo Leminski

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Penso, logo sonho.





Tantos pensamentos percorrem a minha cabeça ao longo do dia, que acabam por mergulhar no sono comigo. E quando chego lá no fundo, nadando entre lembranças, fragmentos, sentimentos, apelos, dizeres guardados, tantas coisas...encontro você.

Uma claridade estranha faz parecer que o sonho amanheceu no meio da noite, para eu te ver melhor. E seu sorriso. Imagino que nesse momento, se tivesse alguém por perto, veria que eu sorrio enquanto durmo. Quanto tempo passamos materializando nossas vontades num espaço imaterial? Ou os medos? Ou uma coragem que despertos não possuímos?

Não sei. Sei apenas que a saudade é um pincel que vai te desenhando em qualquer lugar e tempo que existo. E quando chega o momento do sonho de ter seu amor, acordo.


Imagem: Ballarina, Joan Miró

terça-feira, 13 de outubro de 2009

12 de outubro





Hoje é dia de
Nossa Senhora da Aparecida.
Ela é Oxum.
Oxum é Rio.
Rio é Água.
Água também é Iansã.
Iansã sou eu.



Fragmento de uma prosa com Marcelo Dev, filho de Ogum e mestre dos magos de outra Santa, mas a Teresa, de um Rio. Venta Iansã que sua filha precisa voar.


Imagem: Acrílica sobre tela, 122x122cm de Marcio Melo www.marciomelo.com .

sábado, 3 de outubro de 2009

A resposta da estante


Como se procurasse um oráculo,
passei o olho na fileira de livros.
Uns meio acabados,
outros cheirando a livraria.
Parei no Leminski
para nao complicar,
para ser curta e grossa,
mas acabei dividida em

"Tres Metades"

Meio dia
um dia e meio
meio dia, meia noite
Metade desse poema
sai na fotografia,
metade, metade foi-se.

Mas eis que a terça metade
aquela que é menos dose
de matemática verdade
do que soco, tiro, ou coice,
vai e vem como coisa
de ou, de nem, ou de quase.

Como se a gente tivesse
metades que não combinam,
três partes, destempestades,
três vezes ou vezes três,
como se quase, existindo,
só nos faltasse o talvez.

Paulo Leminski


sábado, 19 de setembro de 2009

Essa coisa de voar é a maior viagem








É sempre o mesmo ritual. Nas mil filas que temos que passar, confesso para alguém desconhecido que tenho pânico de voar. A pessoa - que provavelmente também tem - diz que o número de acidentes aéreos é bem menor do que os terrestres. É engraçado, parece que realmente acredita que dizendo isso, meu medo vai passar.

Até logo, boa viagem. Agora ao lado de outro desconhecido, o momento sem volta está muito próximo. Melhor pensar em alguma coisa para distrair. Quantos aviões estão no ar naquele momento? Tem até congestionamento aéreo. Fila para sair. Fica até quente e abafado, igual no trânsito. Por quê o meu é que seria o escolhido? Acho que não. Eu nem tive aquelas premonições que dizem que toda pessoa que muda de andar tem. Tranquilo.

Aperte os cintos, cuide da bagagem, dê um sorriso amarelo ao seu vizinho como se fosse descolado e achasse que turbulência até ajuda a embalar o sono. Mas disfarce bem quando for enxugar a mão suada.

Tripulação, decolagem autorizada. Não tem mais volta. Saiu do chão...

Num milionésimo de segundo revejo a toda minha vida e concluo que sou feliz. Umas primeiras lembranças não muito hierarquizadas aparecem. Depois, outras mais óbvias. Bate uma tristeza do que podia ter sido, mas uma sensação de não importar mais. Muita saudade. Saudade de gente, de lugares, de cheiros, de comida, de arrepios, de sofrer de amor, de gozar de amor, de ser feliz, de ser triste, de cantar, de rir, de ir, de vir, de ficar, de sentir saudade.

Se posso olhar pela janela, enfrento o medo. Gosto quando tem o curso de algum rio. Principalmente se for dos grandes. Francisco, Araguaia, Paraguai. Como fazem curvas. Qual a cor. Lembro-me que eles sempre vão pro mar. Acho isso tão bonito, dá saudade de praia também. A mente rapidamente planeja alguma coisa. Se entra no meio da nuvem, perco o ar. D á vontade de puxar as famosas máscaras de oxigênio que graças a Deus até hoje nunca caíram sobre a minha cabeça. Vista liberada. Mudança de paisagem...nossa...obrigada, não tenho asas, mas posso voar!

A cada nova paisagem na memória, mais rumos pedem para ser explorados. Muda o barulho. Alerta, um mal estar. Desacelerou. Tá descendo. Até que foi rápido. Norte, sul, oeste. No leste, o outro mundo. Sai e está fazendo 44 graus. Atravessa duas fronteiras e, ao lado, brinca com neve.

Tripulação, pouso autorizado.

Aperto os cintos. Guardo as idéias. Deixo para depois o planejamento das mil coisas que inventei no espaço entre a certeza absoluta da minha morte naquele vôo e a saudade da vida que ainda quero viver. Aterrisagem completada. Respiro fundo e derreto de felicidade na poltrona, por perceber que gosto de estar com os pés bem firmes no chão. Agora, a minha alma e coraçao é melhor que fiquem mesmo nas nuvens.



sexta-feira, 28 de agosto de 2009

E.T.


Passe lá em casa dia desses
Posso fazer um café,
algum papo pra contar
peço um conselho,
dou o ouvido pra escutar
Sei que quem está sempre
de partida, está sempre
passagem, nem se preocupa
em desfazer as malas:
sempre vai seguir viagem
Então espere um pouco
Descanse e finja que lá
é seu destino final
Aí vou te mostrar
que brincar de me amar 
é bem melhor que voar
em sua nave espacial.


terça-feira, 21 de julho de 2009

Não acontece





Já que o amor é o avesso do tempo, pode ser que eles nunca conseguirão algum momento para se encontrarem e discutirem a relação. No meio desse conflito vou escorrendo feito um filete dágua sem saber aonde vou desaguar. Acho que o tempo vai deixando a gente meio líquido, meio morno. Anestesiado. Logo ele que não gosta esperar, só o que faz é deixar o amor no ar. E se há alguma distância ainda, já não tenho o que falar. Até tentei entender. Procurei em livros, até em fórmulas matemáticas. Das reações químicas às físicas que atraem seres. Ou os repelem. Química. Física. d=vt. Aqui a distância não se mede em quilômetros. t= d/v. O tempo é a distância dividida pela velocidade? Mas o amor tem se tornado cada vez mais breve. Ou cada vez mais ausente. O tempo, incansável, não tem dado muita chance ao amor. Acho então que v=d/t, onde v é a velocidade que aprendemos a nos recuperar de um desencontro, dada pela distância que já percorremos, dividida pelo tempo que estamos nesse jogo da vida. E é sempre bom ter um pouco mais de esportiva, para não endurecer demais. Ou não perder a ternura. E também deixar ir embora o que não quer ficar, mesmo quando o óbvio é ficar para ser feliz agora. Enquanto o tempo passa. Enquanto o amor acontece. E o conflito do amor com tempo não aparece.




domingo, 28 de junho de 2009




A semana passou e nesse domingo frio o corpo parece em desarmonia com a saúde. O trabalho foi muito, as horas poucas, as contas altas, o amor eu nao sei. Algumas plantas ficaram feias, meio que fazendo uma cara de abandono.  A dona andou em falta com a unica coisa que precisa fazer por elas. Regar. Uns dizem que conversar também faz bem. Acredito. Bem para elas e bem para quem fala; nunca vai ouvir o que pensam. A jabuticabeira parece que entristeceu. Pode ser porque o Michael morreu. Ou é só o inverno mesmo. Ou porque o mundo tem gente demais. Coisa demais. Carro demais. A gente fala demais. Bebe demais. E depois, dirige a vida. Imagine o que não acontece...

Acho que é melhor dar água para as plantas agora.

Imagem: jabuticabeira.




quarta-feira, 17 de junho de 2009

Quando o canto adoece



...




Não sei por onde voou,

que suas asas espertas

encolheram-se de frio,

seu canto ficou rouco,

seus olhos soltos num vazio.

Mas sei de um lugar

onde pode encontrar abrigo,

que a temperatura alta

mais o faz parecer

sempre em estado febril.

Estará longe do perigo

ou bem perto dele

(caso seja a sua vontade).

E ao se sentir em casa

dentro do meu coração,

verá que sua tristeza

em um dado instante,

foi-se embora, sumiu.


segunda-feira, 8 de junho de 2009

E meios e inteiros



Amizade é o amor que nunca morre?

A nossa era só virtual.

Essa sina que já não é mais minha,

acabou de tão sobrenatural.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O porto



O porto range
suas ferragens enferrujadas
sofrendo docemente.

Sente saudade dos que foram pro mar
Ou a saudade que sente
e' a dos que disseram adeus
e ficaram no continente?

O porto range
a saudade dos amores
de toda gente.


Imagem: Porto de noronha, pena que sem audio.


Dois Irmaos





Vaguei
seguindo pegadas na areia
para achar o caminho

Uma viv'alma apareceu
roubando meu momento
de solidao

Reinventei o destino

Meu pensamento e onda do mar:
Dois Irmaos de sangue
ilhados no mesmo lugar.



Imagem: Noronha. Ilha dos Dois Irmaos do mirante da Baia dos Porcos.




Baia do Sancho




Para todos os Don Quixotes da vida.

Imagens: Noronha. Amiga e companheira Tita.



Resposta












Feminista não. Independente.




Imagens: Noronha. Caminhada introspectiva pelas praias do mar de dentro num dia nublado.



Pedido ao Deus-Sol










Que o que foi registrado
em palavras ditas e escritas
em folha de papel
assinado e pontuado
com exclamacoes e certezas
fique imovel
no tempo que nasceu.

Feito aquelas fotos antigas
que sao bonitas
porque passaram.



Imagem: Noronha. Hora do descanso do Deus-Sol com a Tita no Forte na Vila dos Remédios.



Chegada





Suite magica de flores e borboletas.

Uma parada cardiaca.

Pulsa?

Sem pulso.

E um mar de distancias

Peixe Star...




Imagens: Noronha....chegada na casa da Tita, minha suite magica e um mar de distancias.

Solução



                                                           
O que fazer quando não se pode viver perto do mar? 


 

Viajar...



Imagens: BR em direção à Baia do Sueste, Noronha.


sexta-feira, 1 de maio de 2009

Bom professor


Aquele que contamina o aluno com sua esperança.




Imagem: Fotografia de Stephen Kelen.





Alvo



Eles dizem não,
não se entregue tanto.
Assim têm a ilusão
de que sofrimento
se pode evitar.

Mas quem dirá
que não há sofrimento
em não viver o momento
que só uma entrega
pode criar?

O mundo sempre terá
aqueles que acham
unhas vermelhas bonitas
e outros que acham vulgar.

Então, melhor equilibrar
a paixão do esmalte vermelho,
com a paciencia da espera
do cor-de-rosa, mas
nao faço a menor idéia
aonde isso tudo vai dar.

Na verdade não importa
porque no erro ou no acerto
a gente sempre corre o risco
do amor nos encontrar.



Imagem: Flechas não atingem o lanceiro do bem. Acrílico sobre tela, Assis de Mello (coisasdochico.blogspot.com). Eu espero que algumas sim...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Imagina



Menina, o mundo ficou bom e nós estamos, finalmente, com todas aquelas sete vidas que merecemos. Que nos prometeram. Imagina que todas as luzes se acenderam e o espetáculo de viver é sempre suave e eterno. E que ninguém tem mais medo de amar e todos agora sabem que são verdadeiros os gestos, os olhares e até os beijos.

Imagina que fomos feitos assim. Para amar. E que há porque chorar. Há, porque as lágrimas respondem aos que são capazes. Aos que têm coragem. E chora-se pela beleza, pela saudade que é torta e há de ser morta. Chora-se pelas encostas da Serra que nos curvamos.

Todas as lágrimas diante a noite, todas as águas restantes do dia.

E, diante de nós, e adiante, e avante, e por todas essas coisas pra frente, fica Ela rindo. E nós não resistimos aos encantos da que nos consome e é, ao mesmo tempo, velha consumida, sorrindo larga e satisfeita para o amor que nos convida.

Imagina que já somos outros, ou ainda os mesmos... E que fomos convidados pela loucura, que nos faz bem; e ao amanhecermos incompletos, feitos de dia, adormecemos no colo, nos ombros, nos cantos da alegria de nos perder, e de nunca ter nos metido á besta de achar que somos feitos de um só tempo. Um só caminho. Uma só verdade.

Beijos, alegrias e poesias,

Djalma Gonçalves.



Imagem: foto minha e do meu querido amigo poeta em momento de boemia num certo buteco, nas encostas da Serra que nos curvamos...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Grumari



Posso não ter asas para voar, mas posso usar meus braços para escalar até o topo. De lá vejo tudo. O muito azul do céu e do mar. Um branco multifacetado da areia que insiste em me embrulhar. O verde denso da restinga, que mais parece uma coroa em homenagem a Iemanjá. A água translucidamente brilhante, balançando meu corpo submerso a marear. Vejo olhos que mudam de cor só para me confundir. Também o olhar de quem está esperançoso por uma boa onda, enquanto da beira uma pequenina acena e solta um gritinho doce, orgulhosa do pai surfista. A criança dentro de mim e de quem me carregava de cavalinho, brincava de frescobol, dava risada e às vezes até ficava encabulado. O relógio e sua sina de correr ao contrário; cada vez que avança no tempo, é um dia a menos para ser feliz de novo. E o Sol, senhor todo-poderoso que, de tão exibido, para reinar absoluto, fez questão de soprar todas as nuvens para longe dali. Bem longe de Grumari.


Imagem: não é das melhores fotos que tirei na vida, mas ilustra...

sábado, 4 de abril de 2009

Hai Kai


Caguei
se é homem
se é gay

Lu Oliveira

imagem: autor desconhecido

sábado, 21 de março de 2009

Chão meu


Agora que já tenho meu pedaço de chão
posso chorar sem ninguém ver
escondida atrás da mata
na sombra das árvores
em silêncio

Posso trocar a saudade que sinto
pelo barulho do riozinho
que mal nasceu mas já sabe
que o seu único destino é o mar

Posso sentir o cheiro da terra
o aroma das ervas a nascer
o sol esquentando ao amanhecer
e a felicidade que ainda virá acontecer

Agora que tenho meu pedaço de chão...



Imagem: Rivaldo Barboza www.tracosetrocos.wordpress.com

domingo, 15 de março de 2009

Re-começo



É domingo a noite, sozinha, coloco os meus pés para cima, puxo as folhas cheias de escritos para o meu colo e começo a fingir que um vazio feroz nao tomou conta de mim. Penso em você por um segundo e depois me ocupo por mais outros tantos, para que eu não sinta a velha e conhecida auto crítica de me saber uma profunda idiota. Olho sua foto mais uma vez e aplaudo o personagem de o "Amor nos tempos do cólera". Mera tentativa de me justificar nesse mar de amor sem fim.

Quando não me contenho e estico os braços para você me ver lá de longe, vez você estica assunto. Vez se cala para que eu me afunde de novo na estrada infinita da distância. Perco a cor aos poucos, não para você, nem para mim. Sumo à frente desse amor que há tempos se foi, sem deixar de ir.

Questiono meu existir, minha ansiedade. Lamento meu erro tantas vezes repetido, minhas fraquezas e dúvidas. Choro sua saudade e minha vontade. Sinto-me cansada, mas vejo evolução a cada decepção. Entendo aprendizado.

Desvario amando intensa e invariavelmente. Posso até ser o abandono de alguém. Mas você continua sendo o meu. E eu despejo cada gota desse sentimento na minha preparação para o dia de amanha.

Mais uma semana começa e eu ainda penso em você.


domingo, 8 de março de 2009

Para quem gosta do silêncio


Minha boca sussurou
meu amor ao seu ouvido.

Como resposta ouviu-se apenas
o silencio.

E agora essa ausência permanece
congelada.

Enquanto isso você derrete suas lágrimas
por quem atirou o seu amor ao mar.


Imagem: autor desconhecido

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Embriaguez






De tempo em tempo
caminhos se encontram e
nossas estradas se unem
ao sabor do vento

Quem gosta da estrada
não pára de andar,
hoje está aqui, amanhã
em qualquer lugar.

Afinal, o que permanece então?
Um cheiro encaracolado,
embriagando os sentidos,
entorpecendo o coração?

Já que na direção da vida
essa embriaguez tem perdão,
até a Lei Seca da sua ausência
fiquemos bêbados de amor, em vão.




segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Dialeto para uma saudade



Voce é o meu quentinho,
Braço forte me aconchega direitinho
Chega mais perto pra esquentar mais um pouquinho
meus pés que nao gostam de ficar longe dos seus, sozinhos

Toda manha me de um beijo
Mas se for cedo, meu amor, me deixe e saia de fininho
Bem humorada sou demais e posso ate sorrir de mansinho
também me encher de coisa boa pra te dar muito carinho

E nosso amor de tanta poesia terminar sempre em três pontinhos...

Imagem: autor deconhecido.

Pés de férias!


"Sujar os pés de areia pra depois lavar...na água.
Lavar os pés na água pra depois sujar...de areia."
Arnaldo Antunes



Ela estava descendo das nuvens aos poucos, porque é assim que se sente quando tira férias. Férias longas, dessas para esquecer senhas, números, muitos números – salvo as senhas do cartão, porque a parte não muito romântica da história é que tudo tem seu preço e geralmente é bem altinho.

Entrou no banho e mais uma vez pegou um arsenal para tentar limpar os pés que estavam encardidos. Encardidos de férias! Sujos de andar descalços. Sujos de pele nova misturada com pele velha da bolha que se formou na terceira noite de forró consecutivo. Pés de férias!

Tentou, tentou e nada adiantou. Os pés continuavam meio amarelados. E também tinha sujeira nos cantinhos dos dedos. Uma areinha danada que ficava escondida. Ela ficava tentando tirar a areia do cantinho. A cada tentativa entristecia um pouco e nao sabia por quê.

Saiu um grão! Vibrou, depois olhou o grãozinho de areia no pauzinho que estava usando para cutucar o pé. Suspirou. Ficou imaginando em que andanças, em quais areias seus pés se afundaram e carregaram em suas reentrâncias memórias de um tempo feliz. Um tempo feliz de férias. Deu vontade de deixar as sujeirinhas bem quietas lá no canto delas, como um culto ao andar com os pés descalços.

Isso! Um culto à olhar para o céu e saber se o dia seguinte será de sol ou de chuva. Se a maré vai encher ou vai vazar. Se o pescador vai pro mar ou vai ficar. Que fruta é a da estação. Um culto à vida simples. Às nossas origens. Esquecidas.

Ainda bem que ainda existem férias para a gente brincar de ser feliz um pouco. Porque ela, ao constatar que estava de volta a cidade, depois de mais alguns suspiros, teve a cruel constatação: precisava de um salão de beleza para que seu pé ficasse limpo e bonito de novo. E as mãos. E os cabelos. E o trabalho. E o mestrado. E a internet. E o celular. E as contas.

E tudo de novo.


Imagem: foto na beira na barra do rio Caraiva...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O silencio



antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor


Composição: Carlinhos Brown / Arnaldo Antunes.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Barra Grande


Grandiosa!

Sua paisagem em policromia
abre os meus sentidos e
barra tudo que não é
encontro de rio com mar.

Só não barra a minha
grande, quase infinita,
sede de amar.


Imagem: fim de tarde no Bar da Rô...braço de mar. E ela desatinou...



sábado, 24 de janeiro de 2009

Revelação





Na minha casa somos quatro irmãos.
Todos homens.
Inclusive eu.



Imagem: cartaz do designer J. Howard Miller, “We can do it”.


O empecilho

Rita estava a procura de um amor perfeito há algum tempo, mas claro que já sabia que não iria encontrá-lo assim, na Bahia, durante suas férias de verao. Mesmo assim, mantinha seu olhar atento aos sorrisos, tentando pescar algum que tocasse o seu coração. Logo apareceu um rapaz, moreno, cabelos castanhos escuros e lisos, barba por fazer e, sim, um sorriso que iluminava o bonito rosto que em sua frente se apresentava.

Não demorou para Rita perceber que não teria que fazer muito esforco, pois o olhar do moço já procurava pelo dela e toda vez que se cruzavam, ele despistava e ria baixinho, olhando para o chão, como se fosse tímido, estratégia que para uma mulher como ela, tem lá uma certa eficiência. Muito decidida, a Rita.

Estou cansada, disse ela, Eu também, respondeu ele. Acho que vou andando, Rita completou, Vou fazer companhia, retrucou o moreno. Todos os presentes na mesa do bar perceberam o que se tramava, mas faziam de conta que não, o que faz parte do jogo de sedução que ainda se vê muito por aí.

Antes dos primeiros cinco minutos de uma caminhada que duraria cerca de vinte, deram o primeiro beijo e Rita pensou, Sim, era isso que eu estava procurando, era por esse beijo que esperei toda a minha vida, era essa a respiração. Seguiram até a casa onde estavam instalados e deitaram-se na rede, abraçados. Ele a acariciava como se já a conhecesse há anos. Passava os dedos delicadamente em seu rosto, em sua testa e em seus cabelos, num gesto como se quisesse fazê-la adormecer em seus braços. Rita começou a ter a certeza de que existe essas coisas de destino, encontros esprituais de almas que se perderam uma da outra em algum tempo do passado e que, de repente, resolveram se encontrar ali, na Bahia. Claro, que outro lugar do mundo seria mais perfeito para reencontrar a sua alma gemea?

Só havia um problema. Ele partiria ao amanhecer, mas Rita muito confiante que ali havia se consolidado um laço afetivo, antes de se despedir e ir dormir, pediu que ele deixasse debaixo da sua porta um bilhete com os seus contatos e deu um beijo terno e também um abraço.

Ao acordar, Rita não viu nada perto da porta, nem longe dela e pensou que de repente poderia ter batido um vento muito forte que tivesse levado o bilhete para longe. Ou que ele não tivesse empurrado direito, deixando exposto à chuva de verão que de uma em uma hora desabava, o bilhete que assim se desmanchou. Depois de um tempo pensativa e um pouco cabisbaixa, foi para a praia e de tudo se esqueceu.


Passados dois dias, Rita seguiu a sua viagem e parou numa cidade para resolver algumas coisas e dormir, pois ainda haveria uma longa estrada pela frente. Ao sair para jantar, Rita teve uma surpresa. O moreno estava lá, ainda não havia ido embora, tudo seria explicado, o que teria acontecido, por que o bilhete não estava lá debaixo da porta, tudo. Rita acreditou mais uma vez no destino, mas se fez de difícil para criar uma certa expectativa no rapaz, que por sua vez tinha as mãos ansiosas em segurá-la em seus bracos mais uma vez. Rita cedeu. Os beijos, as declaracoes, tudo veio a tona novamente.

Depois de alguns momentos de profusão amorosa, Rita não se segurou e perguntou por quê o bilhete não estava lá. O moço respondeu exatamente o que ela temia ouvir. Disse que não havia deixado bilhete algum. Vendo no rosto dela a decepção estampada continua, Rita, é que eu tenho um empecilho, Como assim, empecilho, pergunta Rita, Ah, sabe como é, uma coisa, Uma coisa, Rita pergunta desconfiada, e logo depois completa, Uma coisa ou uma pessoa, É, eu tenho uma namorada, diz finalmente fazendo uma cara de réu confesso. Rita o abraçou forte, contou ate três e foi para o quarto dormir e nunca mais teve noticias do moreno.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Itacaré


Muita gente na rua
Cadê a areia pra pisar?
Ir à praia só de carro?
Eita saudade de andar
Ainda bem que tem
Jeribucaçu de Antônio
Rio, mata e mar também
Logo, logo, pé na estrada
Corre, corre pra Barra Grande
Pra não pensar em nada
Ainda bem.

Imagem: vista na estrada que leva/traz a Itacaré..


domingo, 11 de janeiro de 2009

Caraíva


Rio d'Oxum
Mar à vista, Iemanjá
Rua de areia fofa
Caraíva, felicidade mora lá

Encontro de águas
energia feminina
fertilidade que exala
iluminando cada esquina

Forró, Xote, Baião e Xaxado
de dia ou de noite
numa dança
um novo amor é revelado

Casas coloridas, táxi-carroça
Muqueca e pirão
Ritmo baiano, espera...
Dá até pra fazer uma canção

Os dias se vão
tudo vira lembrança
de saudade o peito se enche
e segue pela Bahia a andança

O próximo destino?
Pode ter rio, pode ter mar
pode ter sol
pode até enluarar

Só não pode deixar
o coração desavisado
bater em disparada
e desatinar...

imagem: foto do "táxi" em Caraíva. Uma feliz entrada em 2009.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Repouso


Deixe dormir em paz
o que no passado ficou
que o presente 
se apresenta
com as cores
e sabores da amizade
que tambem alimenta.



Imagem: foto numa tarde chuvosa em Santa Teresa do Rio de Janeiro.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Separação




“Não somos filhos de um único verso
Nossa poesia é fértil feito carinho.
Enquanto isso, o desencontro segue a sua poeira.
E a melodia é a paisagem que caminha”.

Daniel Rubens Prado, amigo e poeta.


Agora sei por que tantos escreveram sobre a dor de uma separação. Será que algum deles conseguiram-na expulsar letras afora? Talvez o Vinícius de Moraes em uma de suas prosas, das mais lindas que li. Talvez o Chico Buarque em Trocando em Miúdos. Engraçado, soa dramático, claro, mas agora sinto que nenhuma linha jamais foi ou será suficiente para me mostrar que outros passam por isso, e que depois tudo isso... passa. 

Há três anos nos conhecemos. Eu, recém egressa de uma jornada curta pelo norte do país, atordoada, confusa, apaixonada e triste. Ele, curando-se de um amor doente. Olhos grandes, assim como o sorriso. Surgiu, como que por mágica, entre os dois músicos que eu conversava e fixou o olhar em mim. Não o tirou mais durante o resto da noite. Confesso que achei meio esquisito, mas quando ele se aproximou, conversou um pouco e pediu meu telefone, entendi. Ai, meu Deus, será que dou o telefone errado, pensei. Dei o certo mesmo, afinal de contas eu estava sozinha. Mais sozinha do que nunca, porque era uma solidão acompanhada. 

Pouco depois fui embora. E, quando eu estava descendo as escadas, meu telefone tocou. Era ele. Achei aquilo surreal, mas até dei umas risadas. Enrolei um pouco, desconversei – ligue outro dia, falei. Um tempo depois recebi uma mensagem, vamos ver Vinícius?

Assim ele entrou na minha vida. Para ficar.

O primeiro ano foi marcado pelo mais completo desencontro de amores que imaginei viver. De um lado eu e um amor inatingível, de outro ele querendo me alcançar. Entre idas e vindas nessa estrada sinuosa, cansamos de nos machucar. Na maior parte das vezes, a culpa era minha. Eu o feria e a mim mesma. Dai ficava um caquinho e ele vinha juntar. Um dia, chegando de viagem, arrasada pela consolidação do não-amor, ele foi até capaz de me consolar. Aí preferi me afastar para eu não fazer um estrago ainda maior. Emagreci, perdi a fome pela vida. Fiquei uns quatro meses completamente em estado de dormência. Até o dia em que o revi e me lembrei do que ele me falou; que nossa historia era sem tempo, que atravessava a eternidade, que já havíamos nos encontrado muito antes em algum lugar. A dormência deu lugar a um nó na minha garganta, um gelo dentro do peito, uma vontade de fazer alguma coisa e fiz. Entre declarações e pedidos de desculpas, lágrimas e medo, nos amamos pela primeira vez.

O tempo depois é o tempo do amor que faz da realidade e do cotidiano o seu mais puro mel e veneno. Do mel tiramos a mais doce convivência. Comidinhas naturebas alternando com picanha, minha favorita. Muita música, muita poesia, muitas mensagens de carinho. Havia romance, havia companheirismo, parceria para realizar coisas chatas. Família, filhos que amo e amigos. Tem muito mais. Com certeza, muito mais do que o que foi envenenado pelo ciúme, pela insegurança, pela dúvida. Ou pelos traumas vividos durante a vida, pela bebida a mais e a tolerância a menos, por coisas sérias e coisas tão idiotas quanto a nossa capacidade de desistir de tudo só para tornar a vida mais fácil, porque uma vez alguém me disse que a gente escolhe gostar de alguém e quando fazemos essa escolha, também levamos de brinde tudo o que vem com ela, de bom e de ruim. Então a paz só vai reinar aonde houver um verdadeiro encontro, mas que deve acontecer com pessoas evoluídas. Acho que estou ainda no período pré-cambriano.

Ontem, estivemos na mesma situação de quando nos conhecemos. Uma festa de música e amizade, mas já não éramos mais os mesmos. Sabemos um do outro, amamos um ao outro, e quando o vi entrando, toda a minha convicção de separação se estremeceu. A minha respiração falhou e até agora meu coração está batendo descompassado. Lembrei da mensagem que mandei para ele de Brasília, falando do meu medo da morte e de como ele me confortou, respondendo que nós sempre estaríamos juntos, porque já éramos juntos antes mesmo de nos conhecermos. De certa forma é verdade. Estávamos ali, no mesmo lugar, separados na relação a dois, mas extremamente ligados pela alma e coração. 

Que apenas a dor passe, nada mais.



terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Discordo

Dizem que a cor da paixão
é vermelha.

Para mim,
a paixão é azul. Azulzinha.

Com pitadas de pôr-do-sol
e água salgada.

Geladinha.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

De vento em Pipa


Não se esquece quem é dono de qual lado da cama, mas é até perdoável, já que a arte de dormir junto é para poucos dois em um que às vezes se encontram por aí.É claro que a linha imaginária funciona muito bem para definir as regiões climáticas do planeta, mas não é muito eficiente para impor limites ou definir a temperatura do coração.

Dormir junto é permitir que essas linhas sejam cruzadas, que a pulsação e a respiração sejam conhecidas e se algo muda, alguém vai querer saber o por quê. Aquele que mudou pode responder, ou simplesmente não dizer nada e esse silêncio pode ser confortante ou irritante, dependendo do número de voltas que o pensamento tiver dado nesse círculo de amor. Ou os pés também podem se procurar no fim da cama, como um jeito de apaziguar até mesmo o que já é somente ternura. Depois o sono vem para silenciar ainda mais a quietude, deixando só o assobio do vento embalando os sonhos.

O que importa se os pensamentos às vezes se afastam para outros suspiros? Importa muito, porque os cabelos cheirosos como o cacho de caju daquela árvore lá da praia, esteve tantas vezes enrolados nos meus dedos e grudados na pele suada de amor, que é difícil imaginar outras mãos a afagá-los. Mesmo imaginando, é possível apostar que em outros cantos, o cheiro não é o mesmo . Em cada olfato um registro, uma memória. Ganhará a memória que não se findar?

O cajueiro ainda estava florido. Ainda há frutos para dar. Contudo nem as grandes falésias foram capazes de guardar seus pensamentos num só lugar. Grande ilusão seria, os cajus nem maduros estão...Mas no meio do azul, dividido entre céu e mar e um punhado de sol refletido no seu rosto sorrindo ao me olhar, dava até para acreditar que ao cair da noite, você haveria de se entregar. Eu só tinha a espera para lhe dar.

A sua entrega e a minha espera continuaram estáticas, talvez por um cansaço, talvez por medo, talvez por uma saudade. Então, como a lua minguante que vimos nascer, pego a estrada e vou sumindo devagarinho e aos poucos você nem vai se lembrar que eu disse que viveria um grande amor, desses que nos fazem mudar o prumo, mudar de rumo, porque quando os golfinhos não apareceram, deram o sinal de que esse amor só viveu de vento em Pipa.


Imagem: Soltando pipa
Ricardo S. R. Costa

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Avesso do tempo





Desde o primeiro contato teve a certeza de que ali estava começando uma história de amor. No início não tinha muita coragem de fitá-lo, disfarçava toda vez que vinha em sua direção. Ele até chegou a pensar que ela gostou de seu amigo. Que tolice! Não era nada disso. O problema era que o seu corpo reagia tão ferozmente à presença dele, que tinha medo de que ficasse tão evidente; o rosto vermelho, calor subindo e descendo pelas pernas, até ficando um pouco estabanada. Mas depois que voltou a ser dona de si, não titubeou em querer uma dose maior dessa sensação que nunca havia sentido antes. Pronto, agora ela tinha certeza. Houve um encontro. E do encontro teceram-se poesias, saudades, ansiedades, desilusões. Para ela o amor era maior que tudo. Qualquer barreira poderia ser atravessada. O tempo em que ficavam longe, a distância que os separava, nada seria motivo para soltar as suas mãos. Aos poucos foi vendo que no amor, a distância não é medida em quilômetros. Foi vendo também que é fácil tornar o amor uma espécie de relíquia, que vive mais da beleza que se espera dele, do que realmente o valor que ele representa quando posto na realidade. E o que é a realidade? Talvez o verdadeiro amor, não seja tão belo quanto o imaginamos. Ou talvez seja, desde que coloquemos um outro olhar sobre ele. Enquanto sozinha ela construía o barco, peça por peça, ele nem se incomodava em jogar a água fora para ele não afundar. Mantinha-se reto em sua convicção de que ela não representava nada avassalador, palavras que até chegou a dizer a ela. Depois de muito tempo, exaustivas tentativas, insistentes buscas, ela finalmente começou a desenhar um outro retrato do amor. Nesse desenho, tórridos momentos na cama, dão espaço a uma dose maior de carinho e cumplicidade. O fator mulher com suas mudanças hormonais e fragilidades, levando a um grau maior de inconstância e exageros, passa a fazer parte do universo desse amor. A convivência, a generosidade em entender e aceitar as imperfeições tornam-se fundamentais. Sem contar as inúmeras horas de desabafos, risos, piadas, e aprendizagem mútua, mas que só é possível para aqueles que não se acham completos. Mudados os conceitos, seria normal pensar que ela estava equivocada quando achou que vivia uma história de amor. Acontece que sem ter vivido o amor imaginado, relíquia disposta na estante, ambos nunca próximos verdadeiramente, ela dificilmente compreenderia o quanto o amor é simples. Seu alimento principal é o reconhecimento e admiração pela diferença, respeito pela limitação e capacidade de se surpreender com o outro. No dia em que compreendeu isso, não foi mais. Apagou os registros guardados por anos e viu que o tempo corre, apaga, leva, cicatriza. O amor acolhe, acende, fica e se abre de novo. Com um suspiro de alívio sentiu-se feliz em entender que o amor é o avesso do tempo.


sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Boa noite


Eu agora vou com
a lua

Procurar em algum lugar
da rua

Qualquer lembranca
sua

imagem: Mulher e passaro ao luar - Joan Miro (1893-1983)



segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Andarilhos no sertão

Andarilhos do sertão,
agora sobre rodas.
Não aquelas que carregam
carroças, trouxas e gentes,
mas as outras que nelas
se equilibram sonhadores.
Passa boiada, passa chão
a fina chuva que caiu
fez brotar o verde claro
dos pequizeiros que derramam
flores e beleza na terra,
terra seca do sertão.
Na esquina, numa encruzilhada
uma casa abandonada.
Mesmo com o bobo medo
de gente já morrida,
adentramos na casa que
um dia já teve vida.
Que surpresa linda
ao entrar e ver a marca de
um quadro negro na parede;
era uma escola do sertão
no meio da estrada,
no meio do nada.
Na volta da andança,
o sol esticava seus raios,
a terra brilhava dourada.
Gente simples que passava
acenava encantada
pelos andarilhos com roupas
coloridas, em cima de
suas carroças urbanas,
que precisam de pernas
para alcançar os sonhos.
E na vida, de sonhar
é a unica coisa que nao se cansa.


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Presente do Indicativo



Penso em você, é claro,
quando o frio bate
e a minha nuca, agora nua,
está longe das suas mãos,
que a aquecem e acendem
a paixão de ter você, enfim.

Penso no vazio que sinto
quando, por não me entender,
eu mesma o afasto e vejo
os lençóis desarrumados
marcando contornos do seu corpo,
que mora ali quando sou amorosa.

Penso nas cores que irradiam
da sua presença, nas flores
vermelhas dos meninos
de Liverpool, no verde da
samambaia, no furta-cor rítmico
cintilante, brilhante,
que exala da sua vocação
em tocar meu coração.

Penso em não soltar
as suas mãos que afagam
a minha dor, que se juntam
como se quisessem me dar
um pouco de ar para beber,
quando de noite o sono
tenta me golpear em alerta.

Penso na minha insistência
em permanecer imperfeita,
e no medo de, por estúpidas ilusões,
ter certeza do contrário e
acabar deixando escorrer,
esvair a única fonte do
verdadeiro amor que conheci
desde que a vida me deu você.



domingo, 7 de setembro de 2008

Meio Tom



As nuvens vão chegando
Abraçando as montanhas
A multidão caminhando
Cada qual com sua solidão

Pingos, frios, não se importam
Começam a cair fazendo os passos
Se apressarem entre os prédios
Arranha-montanhas e céus

O cinza descolore traços
Enquanto passos procuram marquises
A água cai, pesada vai
Molhando felizes e tristes

Mas em algum lugar da cidade
Ainda deve existir um jardim
Onde esteja chovendo na roseira...



Canção com Beto Lopes



sábado, 6 de setembro de 2008

Conclusao


Já que todo
amor um dia
pode acabar

Todo dia
me acabo
de tanto amar

E sei que
quanto mais
eu amo

Mais amor
tenho para
dar



Imagina



Estava boa para beijar
Vesti-me para ele
Mesmo sabendo
que não o veria

A imaginação conforta

É sempre assim
Tomo uma injeção dele
e depois fico arquitetando
sua presença imaginária

Mas de tão longe
ele fica tão pequeno
que como se fosse um pozinho
eu o sopro pra esquecê-lo.



Imagem: Alessandro Narimatsu de Faria



Onírica



Lá no alto da cidade, onde o vento faz a curva, sorrisos e lágrimas se misturavam. O coração batendo forte estava cansado de navegar num mundo imaginário. Correu atrás da verdade. Cruzou a cidade, arrumou os cabelos, colocou a camisa dentro da calça, consertou a postura. Deu mais alguns passos, certificou-se de que estava em lugar isento de desconfianças. Não queria que soubessem qual era a sua intenção.


De tanto se ocultar, ocultava-se também o que queria descobrir. Deu um passo atrás e ficou no meio de tudo. As coisas foram se clareando. A luz começou a entrar pelas frestas, portas e janelas. Atingiam diretamente a retina e os olhos que ardiam, queriam se fechar, mas não podiam. Precisavam ficar bem abertos pra ver. A verdade começou a se despir. Uma certa timidez tomou conta, uma vontade de sair correndo. Ficou.

Os olhos foram deixando de arder e então pôde ver tudo, claramente. Finalmente entendeu. A claridade começou então a abrandar lentamente. Foi embora junto com o último raio de luz que escorria rua abaixo. Deitou-se com satisfação, pois descobriu que o desamor não era apenas imaginação. Adormeceu-se e sonhou que nada disso era verdade...