
“Não somos filhos de um único verso
Nossa poesia é fértil feito carinho.
Enquanto isso, o desencontro segue a sua poeira.
E a melodia é a paisagem que caminha”.
Daniel Rubens Prado, amigo e poeta.
Agora sei por que tantos escreveram sobre a dor de uma separação. Será que algum deles conseguiram-na expulsar letras afora? Talvez o Vinícius de Moraes em uma de suas prosas, das mais lindas que li. Talvez o Chico Buarque em Trocando em Miúdos. Engraçado, soa dramático, claro, mas agora sinto que nenhuma linha jamais foi ou será suficiente para me mostrar que outros passam por isso, e que depois tudo isso... passa.
Há três anos nos conhecemos. Eu, recém egressa de uma jornada curta pelo norte do país, atordoada, confusa, apaixonada e triste. Ele, curando-se de um amor doente. Olhos grandes, assim como o sorriso. Surgiu, como que por mágica, entre os dois músicos que eu conversava e fixou o olhar em mim. Não o tirou mais durante o resto da noite. Confesso que achei meio esquisito, mas quando ele se aproximou, conversou um pouco e pediu meu telefone, entendi. Ai, meu Deus, será que dou o telefone errado, pensei. Dei o certo mesmo, afinal de contas eu estava sozinha. Mais sozinha do que nunca, porque era uma solidão acompanhada.
Pouco depois fui embora. E, quando eu estava descendo as escadas, meu telefone tocou. Era ele. Achei aquilo surreal, mas até dei umas risadas. Enrolei um pouco, desconversei – ligue outro dia, falei. Um tempo depois recebi uma mensagem, vamos ver Vinícius?
Assim ele entrou na minha vida. Para ficar.
O primeiro ano foi marcado pelo mais completo desencontro de amores que imaginei viver. De um lado eu e um amor inatingível, de outro ele querendo me alcançar. Entre idas e vindas nessa estrada sinuosa, cansamos de nos machucar. Na maior parte das vezes, a culpa era minha. Eu o feria e a mim mesma. Dai ficava um caquinho e ele vinha juntar. Um dia, chegando de viagem, arrasada pela consolidação do não-amor, ele foi até capaz de me consolar. Aí preferi me afastar para eu não fazer um estrago ainda maior. Emagreci, perdi a fome pela vida. Fiquei uns quatro meses completamente em estado de dormência. Até o dia em que o revi e me lembrei do que ele me falou; que nossa historia era sem tempo, que atravessava a eternidade, que já havíamos nos encontrado muito antes em algum lugar. A dormência deu lugar a um nó na minha garganta, um gelo dentro do peito, uma vontade de fazer alguma coisa e fiz. Entre declarações e pedidos de desculpas, lágrimas e medo, nos amamos pela primeira vez.
O tempo depois é o tempo do amor que faz da realidade e do cotidiano o seu mais puro mel e veneno. Do mel tiramos a mais doce convivência. Comidinhas naturebas alternando com picanha, minha favorita. Muita música, muita poesia, muitas mensagens de carinho. Havia romance, havia companheirismo, parceria para realizar coisas chatas. Família, filhos que amo e amigos. Tem muito mais. Com certeza, muito mais do que o que foi envenenado pelo ciúme, pela insegurança, pela dúvida. Ou pelos traumas vividos durante a vida, pela bebida a mais e a tolerância a menos, por coisas sérias e coisas tão idiotas quanto a nossa capacidade de desistir de tudo só para tornar a vida mais fácil, porque uma vez alguém me disse que a gente escolhe gostar de alguém e quando fazemos essa escolha, também levamos de brinde tudo o que vem com ela, de bom e de ruim. Então a paz só vai reinar aonde houver um verdadeiro encontro, mas que deve acontecer com pessoas evoluídas. Acho que estou ainda no período pré-cambriano.
Ontem, estivemos na mesma situação de quando nos conhecemos. Uma festa de música e amizade, mas já não éramos mais os mesmos. Sabemos um do outro, amamos um ao outro, e quando o vi entrando, toda a minha convicção de separação se estremeceu. A minha respiração falhou e até agora meu coração está batendo descompassado. Lembrei da mensagem que mandei para ele de Brasília, falando do meu medo da morte e de como ele me confortou, respondendo que nós sempre estaríamos juntos, porque já éramos juntos antes mesmo de nos conhecermos. De certa forma é verdade. Estávamos ali, no mesmo lugar, separados na relação a dois, mas extremamente ligados pela alma e coração.
Que apenas a dor passe, nada mais.